Poesia

Dellafuente busca através das palavras apresentar e representar o mesmo mundo onírico e surreal que cria em suas pinturas e desenhos.
São textos poéticos, livres de dogmas e das rotulações monossilábicas de saraus dos ditos poetas contemporâneos.

 

Sobre São Paulo

Foi pacto selado! Para cada tamanduá morto um edifício devia ser levantado. Entenderam tudo errado, e levantaram um para cada formiga do tamanduá alimentado!

 
PROJETO: Memórias de Observação
Dellafuente foi convidado pela Casa da Lapa (coletivo de artistas), a participar das ações culturais e de inserção da Praça Kantuta, tradicional ponto de encontro gastronômico e cultural dos imigrantes bolivianos em São Paulo.
Sendo filho de bolivianos, Dellafuente criou textos e desenhos a partir de seu convívio e observação junto aos seus patrícios.
Onde relata de forma direta, poética e crítica o dia a dia dos bolivianos na cidade de São Paulo, seus sonhos, frustrações, preconceitos e sua tradicional alegria e festas.
O projeto em parceria com a Secretaria dos Direitos Humanos da Prefeitura de São Paulo, durou 6 meses, e durante esse período, Dellafuente criou mais de 70 desenhos de observação juntos de 16 textos.
Segue abaixo a transcrição de alguns:

Texto 1
Les Boliviens

Existe um mistério no mundo o qual todos nós concordamos.
Algo que uniu por eras o homem, a mulher, a criança e a natureza.
Que pelo ouro achado e roubado, assim como a prata, foi esquecido e abandonado em páginas amareladas pela história, e escurecidas pelas almas dos gananciosos e idiotas que a escreveram.
Mas há quem.
Um pedaço de terra incrustado no alto da coluna cervical sul-americana, repleta de gente morena, que vive entre as nuvens e que toca os céus.
Os quais a fé e a pureza da alma são brindes pouco validados pelos olhos ainda colonizadores.
Os Bolivianos.
Se o nome descende de um ato de libertação, que a mesma seja tarde, mas não tardia.
Olhares curiosos e mareados de uma ingenuidade que brilham com a benção dos raios solares, hoje extinta entre os povos globalizados, e que ocupam a Praça Kantuta em São Paulo.
Eles, onde o som longínquo do copo vazio tocando com força desproporcional a mesa de um bar, resultado da mescla de alguma esperança e franca desilusão, parece tentar equivocadamente mostrar a todos sua própria grandeza cultural.
Cultura que hoje é costurada em pequenos espaços pelos mais diversos bairros paulistanos, inspiradas por ondas de rádios comunitárias, repleta de notícias que enchem a alma!
Aleluia!
Eu, que hoje atendo pelo nome de Leonardo Dellafuente, filho de pais bolivianos, escrevo a todos o que ouço, vejo e desejo.
Se Zeus do lado de lá criou a flauta de Pan, nuestra Pacha Mama nos deu a zampoña, o charango, e boas doses de chicha!
A música e a felicidade comemorativa nos foi ofertada!
O que mais nos falta? Altitude ou atitude?
Conseguiremos assim mesmo. Pois somos filhos da Terra e do Sol, e assim sendo, nossa sombra é eterna. Nossa língua, costumes e conhecimentos também.
São Paulo tem mais prédios que pessoas…
Então, olho para o prédio mais alto ao longe e imagino-o coberto de neve, na verdade todos eles repletos de neve, cercado pelos meus velhos amigos, que cantando juntos, aquela velha música e som que acompanhou nossa juventude, nosso time de bairro, os bailes, e nossos amores…
O que me faz perceber que meu coração já está também costurado.
Pela linha nobre da lembrança, junto da agulha brilhante da esperança.
Aleluia!

 

Texto 12
Saturnismo

Ela leva pela mão, sua semelhança em miniatura, com votos de um futuro melhor, sem tanto sofrimento.
Que com a luz amarela dos postes, cria um eclipse ora total, ora parcial, em suas enormes bochechas morenas e rosadas, acentuadas pelos olhos puxados, feito laje em pequenos e distantes quarteirões periféricos.
Assim alimenta sua filha.
Num domingo frio e de tons escuros.
Parando em bares de pouquíssima reputação, mas de preços acessíveis.
Pedindo com certa dificuldade pela mistura acidental de seu idioma nativo com as inúmeras regras do português, um prato comercial.
Com salada e não para viajem.
Enquanto corta pequenos pedaços do bife fino e bem passado, apenas em suas extremidades, junta-os com o arroz e o feijão no garfo já torto e desgastado pela quantidade de uso, levando-o até a boca da criança.
Que olha ao seu redor e não julga os cambaleantes seres que ali falam alto e riem de algo só eles entendem.
Brinca com o velho saleiro e amassa guardanapos na mesa.
Assim também foi sua avó.
Que caminhava apressadamente ao fim da feira, atrás de frutas que tivessem o mínimo de danos.
E sempre voltava com as sacolas cheias.
Depois, utilizava seu tempo disponível para costurar os remendos das calças e blusas de todos os filhos.
Mesmo preparando todos os dias a mesma comida e o mesmo mingau.
Criando filhos, filhas e força hora a hora, ano a ano.
Mesmo que alguns forçadamente fingem esquecer de tudo que viram.
Ou negligenciassem uma despedida.
Naquele momento em que a partida se aproximou.
É a preleção do mundo.
De crianças e avós.
Aquela vala entre o passado e o futuro.
Que deixa de ser quando percebemos.
E olhamos para a mesa.
Repleta de guardanapos amassados.

 

Texto 6
Um plástico no Mar

Um plástico no mar.
Que leva teu nome e banha toda minha costa.
Distante o suficiente.
Para ouvi-lo sussurrar nas noites escuras.
Passos e pegadas nas paredes, constroem minha pequena cidade.
Teus cílios são as pontes que quero.
Se realmente chegar o amanhã.
Pelas invasões ruas acima.
Casas em que o coração também tem a sua memória.
Vestem o feito horizonte.
Forasteiro frente às leis do mundo.
O conforto é quase sempre o das idéias.
Que tingem o véu daquele que passa,
nos bares pequenos e quase iluminados, entre as gorduras temeráveis da vida.
Ilustres histórias enchem mais que copos.
Quase heróis e bestas completas brindam a cada concordância.
Campos acinzentados orgulhosos dos postes que parecem algo.
Assim modificam-se apenas ruas e declives.
Seguem os dias e as distâncias talhadas,
do ressoar das emoções puras.
Pela janela carregam-se pensamentos.
Onde a austeridade da falta de dinheiro,
estabelece as placas, todas elas.
Se viver é resistir, junto de você encontro a anistia.
Que velas arderão em nosso caminho,
nublado e de risco medido, mas não calculado.
Onde e quando os que tentam tanto desembarcarão na estação.
Primavera, outono ou verão.
Na terra desejada.
Com seu melhor traje e ao seu lado a mais amada.
Alguém cantava assim,
acompanhado de batidas e outros destilados de cá.
Quando o sol se espreguiçar voltaremos,
carregados por folhas aerodinâmicas em direção a última gota de azul do céu.
Aquela que você apontou.
Sorriu e se concentrou.
Uma vida só não basta…
Boa prova.

 

Texto 16
Negrito de la suerte

Pelo caminho pleno,
livre dos medos, aumentei minhas portas.
Acendi as velas coloridas onde mais se necessitava, por mais uma noite tranqüila de ventos cantantes.
O vôo do grito do meu nome cortou nuvens de cigarro pelas ruas.
A sombra do condor abraça os prédios, que abrigam entre suas pequenas janelas, oficinas e cantos de fé.
Aquela ao qual flutuamos em silêncio.
Sem norte magnético, banhado apenas por ondas invisíveis.
Onde a primeira onda que se choca contra as pedras, prepara as mãos vizinhas e tremulas para as mensagens na garrafa.
Que se amontoam na pequena mesa de bar.
O céu abre-se ao pré carnaval.
E gera um eclipse quando os últimos pedaços de serpentina e confete tocam o asfalto.
Carregamos nossas pesadas máscaras e esperamos o dia radiar.
Aos pés de todos os santos nascemos, crescemos e merecemos morrer.
Sem acesso ao mar.
Onde praticamente o único momento de contato com a água salgada é  a água do próprio choro.
Assim vi todas as famílias passarem diante de mim,
de mãos dadas, contra o vento, e o avarento.
Multiplicaram-se pela crença e vieram carregando mais que bagagem depois da fronteira.
Todos já nos sentimos assim,
estrangeiros em pupilas alheias.
Procurando por cavernas coronárias.
Deus, que nuvens e a boa sorte estejam sempre com eles.
Que devolvem eternamente tudo em pequenos e sinceros sorrisos.
Este é o fim do período de convivência e trabalho da Casa Latina na Praça Kantuta.
Um curto espaço no tempo, que flutua entre o hoje e as últimas lembranças empoeiradas.
Do tamanho talvez, da própria praça.
Que não se mede pela largura, e sim pela presença humana.
Pela profundidade das almas e sonhos que ali se sentaram para comer, beber e viver.
Da mesma maneira que viram seus pais e avós o fazerem.
Eu mesmo sentei-me à sombra e os vi.
Vi, observei e os eternizei em linhas, papeis e letras.
Um pequeno relato sobre a grandeza do ser.
Que encheram meus domingos de perguntas e respostas sobre quem realmente sou e me pareço.
Ora via meu passado longínquo em olhares tímidos e pernas agitadas pelas brincadeiras, ora vi meu futuro, saboreando cada ingrediente da comida pedida, ou cada gota da chicha.
Em meio aos dois, estava eu ali.
Com a caneta em meio aos papéis.
Suspenso no tempo e espaço.
Adorado pelo Sol e alimentado pela Pachamama.
Voltando pra casa, junto deles.
E levando um beliscão de sorte.
Gracias Bolívia.
Tu tens a altura que teu povo merece.
Até algum domingo.

 

Natália
La malédiction de la beauté

Ou mesmo as cosiderações
de uma síndrome de batata.

É uma beleza húngara.
Diante de mim,
à desenho com os olhos
e desejo com minha alma.
Ela vagueia cavando,
bons motivos e se
mente das desculpas.
Olhar profundo do
precipício onde beirada de
esperança é soprada pelo pulo.
A sombra que te segue é uma
projeção do traçado idealizado.
Vida doada à colecionadores ordinários
e síndicos do aluguel coronário que penhoras.
O que falta!
Borboletas não dançam pelo
seu jeito de caminhar.
Se você tem,
Fuma.
Assim nuvens podem fazer chover,
e ninguém vai ver
engasgar e de novo chorar.
Pelas vernissage
como um nada que atrai mosquitos de
verão atrás de alguma luz.
Assim você é só
mente
e mais uma!

 

Caminhão Pipa

Um caminhão pipa,
molha todo meu trajeto.
Tentando convencer-me,
que passos não deixam pegadas,
e que pensamentos sim.
Ao entender seu nome,
comecei a deduzir de onde provinha,
tamanha quantidade de água!
Mesmo com um tamanho,
exagerado para um quarteirão,
o caminhão pipa pesava,
apenas a somatória de seu motor, pneus e condutor.
Sua carga era composta unicamente por nuvens.
Mas nunca vi estrada tão íngreme ou atalho mais bem escondido.
Qual caminho fizera?
Tarde de mais…
O caminhão apenas vem.
Nunca vai.
Ao contrário da pipa que teima a subir para completar o mosaico celeste e criar asas para o Sol.
Sem paredes ou escrivaninha não há luz.
Só sacos bolhas rompendo o silêncio,
e protegendo uma antena semi nova.
E como ouvi e constatei.
Cada poste é um crucifixo.
Mas de quem?
Um para cada cem moradores.
Ou dois abraços por uma fatia?
Ela sabe a resposta.
Assim como modificou a pergunta e desligou o alarme.
É hora de dormir.
Antes que calçadas e ruas sejam uma só.
Uma só maneira do caminhão pipa vir até mim.
Sem semáforos ou platéia.
Porque o sol saiu para voar.
E a pipa nunca mais voltar.

 

Meio sopro

Aquela meia amassou meu pé!
E assim cortou meu sangue uma vez por semana,
durante três meses corridos e sem chuva.
A terra da glória não disponibiliza estacionamento.
É você sozinha em meio a postes vandalizados pelo tempo.
E pelo vento, que é aquele sopro que surge em meio as árvores e os prédios baixos.
E que zomba do teu medo, sombra da tua jornada.
Invadindo pelas janelas e brechas a tua morada,
chegando ao lugar que você não esta.

Assim te avisa e alerta que a condenação eterna,
é desferir palavras que matam só aos outros.
As línguas apresentam a distância carregada entre as montanhas.
Aquela bomba que já foi lançada e explodirá daqui 27 anos.
No outro dia.
O enxame de besouros violeta imprimiu um excelente fractal nos varais dos que não tiveram seu nome na biografia autorizada.
Uma única solução continua sendo um problema.
Acreditavam alguns que viam almas como lençóis brancos.
Viajaremos feito música na forma de um cachecol.

 

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